A Nossa Perceção dos Outros Tem Uma Ligação ao Nosso Bem-estar Emocional

A Nossa Perceção dos Outros Tem Uma Ligação ao Nosso Bem-estar Emocional

Vamos imaginar que dois amigos, a Ana e o António, conhecem uma nova pessoa: o João. Passam algumas horas com o João, falam de vários temas e despedem-se. No caminho de volta para casa, a Ana diz ao António que adorou conhecer o João, que era uma pessoa muito simpática, informada e entusiasta. No entanto, o António responde que ela está errada, pois o João claramente era uma pessoa falsa, que estava apenas a representar e que quando estivesse sozinho, iria falar mal deles.

Quando conhecemos alguém novo, é comum termos opiniões diferentes da mesma pessoa e por vezes contrárias, como neste exemplo. Então quem será que tem razão? Será que algumas pessoas são exímias em conseguir, com base numa primeira impressão, fazer uma leitura precisa da outra pessoa? E porque é que somos capazes de ter tantas avaliações diferentes da mesma pessoa, dos mesmos comportamentos?

Dusting Wood, da Wake Forest University, Peter Harms da University of Nebraska e Simine Vazire da Washington University, fizeram um estudo sobre a avaliação da perceção dos outros e chegaram a uma conclusão muito interessante (Wood, Harms, Vazire, 2010).

Os resultados do estudo mostraram que como nós percecionamos os outros no nosso meio, revela mais sobre a nossa personalidade, do que efetivamente algo sobre os outros. E quando os autores analisaram os resultados, estes foram muito mais longe do que uma mera projeção da autoimagem de um individuo na outra pessoa. A forma como percecionamos os outros, vai mais longe que isso, pois pode indiciar os nossos próprios traços de personalidade e possíveis distúrbios.

Os indivíduos que percecionavam os outros mais positivamente, reportaram maior afabilidade e menor hostilidade, maior satisfação com a vida e menores medidas associadas a distúrbios de personalidade, depressão e atitudes antissociais.

Adicionalmente, outra conclusão interessante, foi que estes indivíduos, tinham ainda mais probabilidade de serem avaliados positivamente pelo grupo que avaliaram e descreviam as suas experiências no grupo mais positivamente. Então, a forma como os outros eram percecionados, determinava a forma como este eram percecionados pelos outros, bem como experienciavam a situação. No nosso dia-a-dia, podemos estar numa situação social (jantar, convívio, com colegas de trabalho, etc) e não gostamos da experiência, indo buscar argumentos para suportar essa nossa conclusão. No entanto, o que este estudo aponta, é que muitas vezes esse processo todo inicia-se em nós, na nossa perceção. Não foi o convívio que foi mau, foi por nós termos percecionado as outras pessoas mais negativamente, logo ao início, que tornou o convívio mais desagradável.

Embora não tenha sido possível atribuir a direção causal destas relações, a investigação indicou fortemente que o quão positivo nós percecionamos os outos num grupo, tem uma relação importante com as nossas emoções, bem-estar, objetivos, valores e atitudes.

Outro dado fascinante, foi que, embora alguns investigadores discutam que cada distúrbio de personalidade possa ter o seu conjunto específico de viés cognitivos (Beck et al., 2004), este estudo verificou que vários distúrbios de personalidade estão associados apenas a uma dimensão: o quão positivos os outros são avaliados por nós. Então, a nossa perceção dos outros, aparenta ter uma importância tão extrema, como ser um próprio sinal de possíveis distúrbios de personalidade nossos.

Os investigadores deste estudo apontam duas enormes implicações desta descoberta:

  1. Em primeiro lugar, percecionar os outros como pouco amistosos, não confiáveis, infelizes e desinteressantes, pode ter como base um conjunto de cognições negativas que agem como causa comum também a distúrbios de personalidade.
  2. Em segundo lugar, se as perceções negativas de outros podem estar por trás de vários distúrbios de personalidade, então trabalhar a nossa perceção dos outros, de forma a vê-los de forma mais positiva, pode ajudar a reduzir os padrões comportamentais associados a diferentes distúrbios de personalidade.

 

Referências bibliográficas

Beck, A. T., A. Freeman & D.D. Davis (2004). Cognitive Therapy of Personality Disorders (2nd ed.). New York, N.Y.: Guilford Press.

Wood, D., Harms, P., & Vazire, S. (2010). Perceiver effects as projective tests: What your perceptions of others say about you. Journal of Personality and Social Psychology, 99(1), 174-190.

 

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Comments

  1. Cristina Rodrigues: Novembro 23, 2018 at 1:13 am

    Adoro conhecer mais profundamente a mente

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