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O Mito do QI

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No início do século XX, instalou-se um mito que ficou enraizado até aos dias de hoje, embora já se esteja a dissipar, à luz das centenas de estudos que têm saído. Trata-se de considerar o QI o único fator de previsão de sucesso de uma pessoa.


Atualmente, existem centenas de estudos e artigos que comprovam que o QI é apenas mais um fator a ter em conta, e não o fator determinante para apurar o sucesso de um líder ou trabalhador.


Esta ideia continua fortemente enraizada no mundo empresarial, visto que a maior parte das empresas apenas usa a formação académica e as médias obtidas como fatores de contratação. Apesar de estes fatores serem componentes muito importantes, estão longe de ser determinantes para prever o sucesso e o retorno que o trabalhador poderá trazer à empresa.


Uma coisa muito curiosa e interessante é a forma como o QI apareceu.


No final do século XIX, a educação em França estava a sofrer grandes alterações estruturais, tendo passado a vigorar uma lei que tornava obrigatória a frequência escolar de crianças com idades compreendidas entre os seis e os catorze anos.


A pedido do governo francês, o psicólogo Alfred Binet foi convidado para uma comissão que pretendia desenvolver um método científico que conseguisse avaliar as crianças e detetar aquelas que tivessem dificuldades de aprendizagem, para que as mesmas fossem postas em salas de ensino especial. Em conjunto com o seu assistente, Théodore Simon, foram desenvolvidos inúmeros testes e, em 1903, publicaram o livro L’étude expérimentale de l’intelligence, no qual descreveram os seus métodos, particularmente a escala Binet-Simon, que veio a sofrer várias revisões, tendo a última sido em 1911, aquando da morte de Alfred Binet.
Em 1916, Lewis Terman, da Universidade de Stanford, nos EUA, publicou a versão revista do teste desenvolvido por Alfred Binet, tendo ficado mundialmente conhecido como o «Teste do QI».


Embora, desde então, o QI tenha ganho o estatuto de grande referência na previsão da inteligência de um indivíduo e, consequentemente, do seu sucesso, não foi essa a conclusão do estudo de Terman (o que não deixa de ser curioso, visto que ele foi um dos grandes defensores do QI enquanto fator de previsão para o sucesso!).

Nos anos 20, Terman publicou um estudo muito ambicioso e pio¬neiro na sua área, denominado «The Genetic Studies of Genius», que visava o registo dos sucessos e insucessos dos seus participantes, todos eles com QI elevado.
Inicialmente, os resultados foram aquilo que Terman esperava.


Os participantes do estudo, todos eles com um QI elevado, pareciam estar a atingir um grau elevado de sucesso nas suas vidas, e, dessa forma, ganhou ainda mais força a ideia de que o QI realmente previa o sucesso.
Tornando-se este o teste padronizado para medir o QI das crianças, começaram a aparecer os rótulos sobre quem iria ter sucesso e quem não iria conseguir vingar na vida. O QI parecia ser a resposta.
No entanto, enquanto os anos decorriam, o estudo começou a mostrar um perfil diferente.


Ao fim de algumas décadas, Terman tinha no seu estudo crianças que, em adultas, vingaram na vida, mas também tinha outras que a sociedade não considerava bem-sucedidas.


Algumas dessas crianças eram adultos que possuíam empregos medíocres e sem futuro e alguns tinham até enveredado por uma vida criminosa.
Desde então, inúmeros estudos têm vindo a comprovar a seguinte teoria: o QI não prevê o sucesso de uma pessoa. Nos anos 50, foi feito um estudo a alunos do doutoramento em Ciências da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos EUA, no qual foram efetuados testes de personalidade, QI e entrevistas.

Passados 40 anos, quando estes antigos alunos estavam perto dos seus 70 anos de idade, foram localizados e foi feita uma estimativa do sucesso que tinham alcançado com base no seu currículo, em avaliações feitas por pessoas de referência nas suas áreas e com recurso a outras fontes, tais como a American Men and Women of Science.


O estudo concluiu que as capacidades emocionais e sociais eram quatro vezes mais importantes do que o QI, como fator para determinar o sucesso profissional e o prestígio (Feist & Barron, 1996).
Claro que isto não significa que o QI, ou seja, as nossas capacidades cognitivas, sejam irrelevantes para o sucesso, ainda mais numa área tão técnica como as ciências. Aliás, é um absurdo pensar assim.
Contudo, julgo que a relevância deste estudo é o elemento de homogeneidade en¬tre os alunos, já que todos tinham um QI elevado, visto estarem a tirar um doutoramento em Ciências, e, no fim, foram os alunos com melho¬res competências emocionais e sociais quem teve mais sucesso na vida.


Quando o QI é o mesmo ou semelhante, não é ter mais cinco ou dez pontos que vai fazer a diferença na nossa vida.
O que vai fazer diferença é a forma como lidamos com as adversidades, como gerimos o stresse e as nossas emoções, e como nos motivamos, reconhecemos as emoções e nos relacionamos com as pessoas à nossa
volta.


Walter Mischel foi, sem margem para dúvidas, uma das pessoas que mais contribuíram para provar que o QI não é, afinal, o elemento que mais prevê o sucesso. Em 1972, este psicólogo fez um estudo que ainda hoje continua a ser replicado e que revolucionou a forma como se passou a olhar para o sucesso. Intitulou esse estudo de «O Teste do Marshmallow».
O estudo contou com 600 crianças, com idades compreendidas entre os quatro e os seis anos de idade, que eram sentadas individualmente a uma secretária, numa sala fechada, com um marshmallow num prato, à sua frente.


O investigador explicava então à criança que esta ia ficar um momento sozinha e que, se enquanto esperava que ele voltasse, não comesse o marshmallow, ganharia então mais um, comendo, portanto, dois marshmallows. Se, por acaso, comesse o marshmallow durante o período em que ficava sozinha, à espera, não ganhava mais nenhum.
Com esta experiência, Mischel pretendia testar a resistência ao impulso, ou seja, a capacidade de adiarmos a satisfação instantânea, de forma que obtenhamos uma recompensa maior e a longo prazo, e como esta característica, detetável logo numa fase inicial da vida, poderia afetar o futuro do indivíduo.


Passados 16 anos, em 1988, Mischel entrou em contacto com os participantes iniciais e os resultados foram impressionantes: aqueles que tinham conseguido resistir ao impulso de comer o marshmallow e aguardado eram agora jovens mais assertivos, com melhores relações sociais, com melhor desempenho académico e com um maior grau de satisfação com a vida. Por outro lado, a maioria daquelas crianças que não resistiram e comeram logo o marshmallow tinha agora um perfil psicológico mais problemático, era menos social, menos assídua na escola, tinha um pior desempenho académico e um menor grau de satisfação com a vida.


Ao longo dos anos, a experiência foi repetida várias vezes por muitos grupos independentes e as conclusões têm sido idênticas.
A aptidão para adiar o prazer parece ser a característica mais estreitamente relacionada com o sucesso na vida.


Embora possa parecer intrigante ao início, a explicação de ser assim é bem simples. Se formos capazes de resistir ao impulso inicial de algo que nos traga uma gratificação instantânea, mas que seja mais penalizadora a longo prazo, pensando numa maior recompensa num espaço de tempo longo, então, mais facilmente obtemos essa recompensa.
Mais uma vez, reforço que o QI é importante, já que nos permite assimilar melhor a informação, aprender mais depressa e tornarmo-nos melhores tecnicamente nas nossas funções, mas não é o QI que realmente vai determinar o nosso sucesso.


Se não formos capazes de saber gerir o nosso stresse, a nossa felicidade extrema, a nossa tristeza, entre outras emoções, e se não formos capazes de saber gerir as emoções daqueles que nos rodeiam, então, por muito bons que sejamos tecnicamente, as emoções vão sempre comandar e influenciar as nossas ações e, com isso, o nosso desempenho, o nosso resultado e o nosso sucesso.


Então, o segredo está em utilizar a nossa inteligência emocional.


(Retirado do Livro “Inteligência Emocional – uma abordagem prática” de Paulo Moreira)

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